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As consequências surpreendentes do mais grave acidente da Fórmula Vee no Brasil

As consequências surpreendentes do mais grave acidente da Fórmula Vee no Brasil

Ricardo Moretti morreu em 1967 devido às queimaduras na explosão do seu carro,
virou nome de rua, de equipe de motociclismo e até de bombeiro no GP Brasil de F1.

Por Fernando Santos

 

Um moço cheio de vibração pelo esporte automobilístico, um dos mais promissores pilotos brasileiros.” Assim, a imprensa descreveu Ricardo Moretti nas reportagens que se seguiram ao trágico acidente no Autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, poucos dias antes do Natal de 1967. Até hoje, o jovem paulistano foi a única vítima fatal na Fórmula Vee no Brasil.

As circunstâncias e consequências desta fatalidade são surpreendentes. Ricardo Moretti jamais havia corrido de FVee e aceitou o convite para a prova fatídica de última hora. Seu carro pegou fogo após uma batida e o socorro demorou a atendê-lo. Devido às queimaduras, ele não resistiu e morreu dias depois no hospital.

Anos após a morte do piloto, o nome Ricardo Moretti reapareceu com uma incrível coincidência como o comandante do Corpo de Bombeiros no GP Brasil de Fórmula 1. Foi ainda inspiração para batizar uma nova equipe de motociclismo, modalidade marcada nos últimos anos por diversos acidentes fatais no país. E passou a dar nome a uma rua próxima ao autódromo de Interlagos, antes identificada com o número 13.

 

Imagens do acidente com o paulista Ricardo Moretti na final do Brasileiro de FVee de 1967, no Rio. Crédito: reprodução Jornal do Brasil.

 

 

Início animador

Ricardo Moretti tinha 18 anos quando começou a competir. Suas primeiras provas foram em 1966, em Interlagos, pela categoria novato, pilotando um Volkswagen grupo 2. Na sua estreia, abandonou a corrida do 4º Aniversário da Associação Paulista dos Volantes de Competição por problemas mecânicos. Ele começou a despontar com o quarto lugar nas 100 Milhas de Interlagos, como descreveu a revista Auto Esporte.

O garoto logo recebeu a promoção à categoria estagiário. Foi quando passou a chamar a atenção e dar trabalho para os figurões da época. Ricardo Moretti terminou em segundo lugar nas Duas Horas de Volkswagen, atrás apenas de outro jovem e promissor piloto: Emerson Fittipaldi. Competiu ainda em provas tradicionais para carros de turismo e protótipos, como as Mil Milhas Brasileiras (19º lugar ao lado de Antônio Carlos Scavone) e as 12 Horas de Interlagos (10º lugar com Zoroastro Avon).

Aluno do tradicional Colégio Bandeirantes, Moretti já era um habitual frequentador do automobilismo paulista. Ele passou então a participar de competições nacionais, principalmente no Rio de Janeiro, que rivalizava com São Paulo como um dos principais centros do esporte no país.

 

Desinteresse pela FVee

Apesar de estar cada vez mais animado com as corridas, Ricardo Moretti não se mostrou interessado pela categoria que começava a fazer sucesso nas pistas. A Fórmula Vee chegou ao Brasil no final de 1966 e realizou suas primeiras provas a partir de maio do ano seguinte. Ao todo, foram disputadas 12 etapas no seu primeiro ano.

Os principais pilotos do país, os mais jovens, logo aderiram à FVee, como Emerson e o irmão Wilson Fittipaldi e José Carlos Pace. A então recente categoria acabou sendo um passo importante na carreira dos três pilotos, que depois seguiram para a Europa e chegaram à Fórmula 1.

Moretti, já com 19 anos, preferiu continuar com os carros de turismo. E foi assim que ele viajou para a sua última prova, no Rio de Janeiro.

 

Golpe do destino

O jovem paulistano foi ao Rio para o encerramento da temporada de 1967, em 17 de dezembro. Ele se inscreveu com um Willys-Interlagos para a Prova Internacional Almirante Tamandaré, que reuniu protótipos e modelos de turismo em várias categorias.

Esta era a principal atração da programação no Autódromo Internacional do Rio, em Jacarepaguá, que receberia também a decisão do primeiro campeonato nacional de Fórmula Vee. Outra novidade era a presença de pilotos portugueses, especialmente convidados. Por isso a prova também ficou conhecida como Luso-Brasileira.

O nome de Ricardo Moretti, porém, não consta na relação dos carros que conseguiram a classificação para a prova. Ao todo, cinco carros foram eliminados por não terem atingido o tempo mínimo no treino classificatório: 6, 14, 72, 88 e 97, cujos nomes não foram identificados no relatório do diretor de prova, Amadeu Girão.

 

Relatório da tomada de tempo para a prova de turismo Almirante Tamandaré, onde Ricardo Moretti não conseguiu se classificar; em seguida, ele recebeu o convite para correr na FVee (crédito: Sidney Cardoso/portal Nobres do Grid). Na sequência, o traçado do antigo autódromo de Jacarepaguá, com a identificação da Curva Moretti, grafada incorretamente com "e" no final (crédito: reprodução portal F1 Templo).

 

Assim, Moretti ficou de fora de uma competição dominada por dois grandes nomes da época. Wilsinho Fittipaldi, com seu famoso Fitti-Porsche, venceu a primeira bateria. A segunda, debaixo de chuva, ficou com Bird Clemente, na direção de seu Mark I. Resultado festejado como uma dupla vitória brasileira, um banho em cima dos portugueses.

 

Emerson Fittipaldi (7), Marivaldo Fernandes (45) e Ricardo Achcar (100) na disputa da etapa decisiva do Campeonato Brasileiro de FVee de 1967, no Rio (crédito: reprodução Auto Esporte/portal LorenaGT). Na sequência, Emerson Fittipaldi recebe o troféu de primeiro campeão brasileiro de Fórmula Vee, em 1967 (crédito: reprodução revista Auto Esporte/portal LorenaGT). No detalhe, Wilson Fittipaldi, um dos idealizadores da FVee no Brasil, venceu a primeira bateria da prova Almirante Tamandaré com o Fitti-Porsche. Crédito: reprodução portal Nobres do Grid

 

 Os pilotos da equipe Palma, de Portugal, competiram com Lotus 47, Lotus Cortina e um Porsche 911s. Eles também receberam o convite para participar da prova de Fórmula Vee. Mas como não conseguiram treinar, desistiram. Preferiram não se arriscar.

Assim, sobraram lugares nos carros de FVee que estavam separados para os portugueses. E havia também um jovem paulistano que tinha viajado ao Rio mas não iria correr, por não ter conseguido se classificar.

Sem nunca ter pilotado um Fórmula Vee, Ricardo Moretti recebeu o convite do piloto Lair Carvalho para conduzir o seu Sprint-Vê na decisão do Campeonato Brasileiro.

 

“Uma vítima e muitos culpados”

Para não perder a viagem ao Rio, certamente Moretti não hesitou em aceitar o convite e ter pela primeira vez a oportunidade de pilotar o carro que chamava a atenção de todos que iniciavam no automobilismo.

Estavam marcadas duas baterias para apontar o primeiro campeão brasileiro de FVee. Emerson Fittipaldi já vinha dominando a categoria desde o início da temporada, em maio, e era o grande favorito para levar o título – o que acabou se confirmando numa situação tumultuada em razão do grave acidente com Moretti.

O jovem paulistano fez uma estreia discreta em sua estreia na FVee. Ele terminou a primeira bateria em 13º lugar, na prova que teve 19 carros classificados. Emerson venceu pela quinta vez na temporada e ficou ainda mais perto do título.

Na segunda bateria, o acidente fatal aconteceu logo na segunda volta. Com o traçado no sentido anti-horário, Ricardo Moretti derrapou e perdeu o controle do carro na terceira curva após a reta dos boxes, quando começava e entrar na Ferradura, no miolo.

Ao rodar, Moretti foi atingido em cheio por outro carro desgovernado, o Jajá-Vê de Antônio Pinto de Souza, segundo relatou a Auto Esporte. Com a batida, o tanque de combustível do carro de Moretti “partiu e explodiu”. Ainda de acordo com a revista, outros três carros se envolveram no acidente, pilotados por Juarez Saadi, Jofre Gomes e Manuel Ferreira.

O local era distante da área dos boxes e por isso os bombeiros demoraram para prestar socorro. A situação se agravou ainda mais porque o extintor de incêndio não funcionou.

 

Carro do piloto Ricardo Moretti em chamas após explosão na última etapa do Campeonato Brasileiro de FVee, no Rio, em 1967 (crédito: reprodução revista Quatro Rodas). Ao lado, o piloto paulistano Ricardo Moretti, que morreu aos 19 anos (crédito: reprodução revista Auto Esporte).

 

Moretti foi retirado do carro antes da chegada dos bombeiros com a ajuda do fiscal Altamiro Almeida Filho e dos pilotos Manuel Ferreira e Jofre Gomes. Os três também sofreram queimaduras. Ferreira foi o mais atingido, nos braços e nas pernas.

A ambulância também demorou a chegar. Ricardo Moretti foi levado com vida ao hospital Carlos Chagas, com o corpo quase todo queimado. Ele foi posteriormente transferido ao hospital Samaritano, onde morreu quatro dias depois, no dia 21 de dezembro de 1967.

Uma vítima e muitos culpados” foi o título de reportagem da Quatro Rodas para mostrar as inúmeras falhas neste acidente. “Nossos pilotos correm em precárias condições de segurança”, escreveu a revista.

 

Tumulto e desrespeito

Apesar do grave acidente, a prova não foi interrompida e causou consternação ainda pela obrigatoriedade da realização da “festa” do pódio, marcada por uma briga generalizada.

Com o carro em chamas à beira da pista e o atendimento às vítimas, a direção de prova decidiu seguir em frente. Há controvérsias sobre a sinalização aos pilotos, com publicações que indicam que foi dada bandeira amarela (proibindo ultrapassagens) ou branca (indicando cuidado com veículos de socorro na pista).

O carioca Ricardo Achcar liderava a prova quando foi ultrapassado justamente naquele ponto crítico da pista por Emerson Fittipaldi e outros pilotos paulistas. Ao final da prova, houve reclamação contundente dos pilotos cariocas pedindo a desclassificação dos paulistas por ultrapassagem não permitida, mas o resultado foi mantido. Para justificar a decisão, Achcar ainda foi desclassificado por uma manobra supostamente irregular.

José Carlos Pace venceu a trágica bateria. Emerson Fittipaldi chegou em segundo e garantiu o título. O secretário da Confederação Brasileira de Automobilismo, Ramon Von Buggenhout, fez questão de realizar o pódio. A revista Auto Esporte descreve que Emerson recebeu o troféu debaixo de vaias do público, em razão da desclassificação de Achcar.

 

Pilotos seguem na disputa de prova no Rio em meio às chamas no carro de Ricardo Moretti. Crédito: reprodução revista Auto Esporte.

 

Enquanto Ricardo Moretti era levado em estado gravíssimo ao hospital, os pilotos ainda se desentenderam. Achcar ficou próximo ao pódio, onde paulistas e cariocas passaram a trocar ofensas e, em seguida, partiram para a briga. Um desfecho ainda mais trágico de um triste dia em Jacarepaguá.

 

A antiga rua número 13

Segundo pessoas próximas, o acidente destruiu a família Moretti. Nenhum parente foi localizado no momento em que foi feito este relato. Mas o nome do piloto não foi esquecido.

Em setembro de 1968, o então prefeito de São Paulo, José Vicente Faria Lima, assinou um decreto que homenageou diversos pilotos e personalidades do automobilismo nacional com o nome de ruas na região que hoje fica em frente ao kartódromo Ayrton Senna, em Interlagos. Antes de ser chamada de Ricardo Moretti, a rua era identifica pelo número 13.

 

A rua Ricardo Moretti, antiga rua 13, fica em frente ao kartódromo Ayrton Senna, em Interlagos. Crédito: Google Maps.

 

Entre os demais homenageados pelo decreto de Faria Lima, está o também piloto Christian Heins, o Bino, outra promessa do automobilismo nacional. Ele morreu num acidente, em 1963, na tradicional prova de Le Mans, na França. Seu carro também pegou fogo após bater num poste. Uma praça na região ainda recebeu o nome do Automóvel Clube Paulista.

No Rio, a homenagem se deu no autódromo. O local do acidente em Jacarepaguá passou a ter o nome de Curva Moretti, muitas vezes registrado com a grafia incorreta (Morette).

 

O bombeiro Moretti

Cerca de 40 anos após o trágico acidente, o nome de Ricardo Moretti ressurgiu no automobilismo de uma forma surpreendente e que passou completamente despercebida. Sérgio Ricardo Moretti foi comandante do Corpo de Bombeiros e da chamada “equipe de extração” em provas do GP Brasil de Fórmula 1, em Interlagos.

O piloto que morreu queimado pela falta de atendimento adequado desta vez tinha o nome do comandante dos bombeiros escalado para salvar vidas na F1!

Sérgio Ricardo Moretti nasceu um ano antes do trágico acidente da FVee. Não é parente e nunca tinha ouvido falar do piloto que morreu em consequência das chamas no Rio, até ser contatado para esta reportagem. “Moretti é um sobrenome muito comum, de origem italiana. No meu caso, veio da minha família no interior paulista”, diz o ex-comandante.

 

O ex-comandante do Corpo de Bombeiros e coronel da Polícia Militar, Sérgio Ricardo Moretti (crédito: Polícia Militar de São Paulo). Na sequência, a equipe dos bombeiros, comandada por Sérgio Ricardo Moretti, participa de treinamento em Interlagos antes do GP Brasil de F1, em 2008 (crédito: Marcos Ribolli/GloboEsporte.com).

 

 

Ele se recorda de ter trabalhado em três ou quatro GPs de F1. O último foi em 2008, na famosa prova vencida por Felipe Massa, que poderia ter sido campeão mundial se Lewis Hamilton não tivesse feito uma ultrapassagem decisiva na última curva antes da linha de chegada. O inglês da McLaren chegou em quinto e ficou com o título, um ponto à frente do brasileiro da Ferrari.

Em seus vários anos de GP Brasil, Sérgio Ricardo Moretti lembra que “felizmente” não houve nenhum grave acidente ou incêndio em Interlagos. Em seguida, ele passou do Corpo de Bombeiros para a Polícia Militar, onde se aposentou como coronel.

Hoje, o ex-bombeiro mora no 13º andar de um condomínio no ABC paulista. Apenas mais uma coincidência com o piloto que deu nome à antiga rua número 13 em Interlagos.

 

Eternizado em duas rodas

O nome Moretti voltou a ganhar destaque no mundo da velocidade quase 50 anos após a morte do piloto. Desta vez no motociclismo, e também de uma maneira surpreendente.

A ideia partiu do carioca Octavio Sereno, um apaixonado por corridas. Mas ele sempre havia competido de carros e tinha medo de motos, principalmente depois que um amigo caiu e quebrou alguns ossos.

Somente aos 66 anos, este carioca que trabalha no mercado financeiro decidiu realizar o antigo sonho de competir no motociclismo. Foi considerado o mais velho a começar a correr em provas oficiais. E depois de algumas etapas, decidiu que, àquela altura, seria mais prudente montar uma equipe. “Parei. Afinal, sempre tive um pé atrás com motos.

 

Octavio Sereno, dono e idealizador da Moretti Racing Team, com a piloto Samara Andrade (crédito: Moretti Racing Team). No destaque, a piloto Márcia Reis, que participou da criação da equipe em 2015 (crédito: reprodução Facebook).

 

Em 2015, Octavio Sereno contou com o incentivo de Márcia Reis, uma das principais pilotos do país e que hoje corre na Europa, para criar a Moretti Racing Team. Logo a equipe se transformou numa das principais equipes do motociclismo nacional. O nome foi escolhido justamente para homenagear o único piloto que havia morrido em provas no antigo autódromo de Jacarepaguá, totalmente desativado para a construção do Parque Olímpico da Rio 2016.

 

Marco de segurança

Sereno lembra que o acidente com Moretti também foi um marco para a segurança no automobilismo brasileiro. “Muita coisa mudou depois, pois houve falhas graves de procedimentos e equipamentos naquele dia. Na verdade, havia um descuido enorme de todos. Era muito desleixo, só faltava os pilotos não usarem capacete”, afirma.

A equipe Moretti chegou a ter 10 pilotos, entre homens e mulheres, e ganhou vários títulos nacionais. Octavio Sereno conta que adotou medidas rígidas de segurança, num esporte marcado nos últimos anos por várias mortes no Brasil.

Foram ao menos cinco acidentes fatais nos últimos três anos, um deles com a piloto Indy Muñoz, em março de 2020. Ela foi uma das primeiras a correr pela Moretti, mas não fazia parte da equipe quando se acidentou em Goiânia por uma incompetência mecânica: a pastilha de freio não foi apertada corretamente. Por isso, não conseguiu brecar e bateu forte na curva Zero.

Costumo dizer que sou um maluco responsável. Ofereço aos meus pilotos os melhores equipamentos de segurança. Nos cinco anos da equipe Moretti, não houve nenhum acidente grave. Teve uma piloto que decolou em Interlagos e quebrou a clavícula, e outros que foram para o hospital e saíram no dia seguinte”, afirma.

Octavio Sereno, hoje com 70 anos, pretende manter vivo o nome de Ricardo Moretti no esporte. “Dizem que nós, brasileiros, não temos memória e não sabemos prestar homenagens. Esta é a minha maneira de discordar.

 

 

 


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